terça-feira, 5 de março de 2019

Formato BI



Naquele tempo era usual a rapaziada trocar entre si fotos suas em formato BI. Não sei, mas parece-me presidir a esta prática uma ideia próxima à que envolvia o coleccionismo de vistosos cromos de raças humanas,  animais ou jogadores de futebol. Com uma diferença assinalável:  por nada se permutavam fotos com terceiros como se fazia às figurinhas repetidas tendo em vista a supressão de faltas e ampliar  o acervo pessoal. Uma fotografia do condiscípulo, vizinho ou primo era recebida e dada como uma chancela de amizade. Já o sentimento envolvido com os retratos das raparigas era outro, podendo expressar um propósito confessado de enamoramento… Só mais tarde os pequenos retratos haveriam de ceder aos formatos mais desafogados, ilustrando não apenas os fotografados de meio corpo, mas inteiros e devidamente enquadrados com o ambiente onde haviam sido captados. Uma boa parte das fotos trocada durante a desassossegada correspondência do período da guerra colonial, entre madrinhas e afilhados, são disso um exemplo.



segunda-feira, 4 de março de 2019

Tal como ele


É corrente haver uma figura masculina que se sobrepõe como objeto de admiração ao pai. No meu caso, foi o meu tio Zeca. E onde encontrava eu os predicados? Ora, na superfície da farda, umas vezes azul, outras branca com que, de longe em longe, vindo do Alfeite, nos revisitava na Lapa do Porto. Marinheiro do mar alto, quantas vezes terá ele sulcado as águas no Sagres, rumo ao Brasil, às Américas, às colónias, à Índia? Pergunto-me. E, sim,  aceito: significativamente menos do que velejou nas ondas  encrespadas da minha cabeça. Seja como for, na idade de ultrapassar por pouco a altura da mesa da sala de jantar, o que eu queria quando crescesse, era tornar-me tal como ele. Mesmo que para tanto tivesse de deixar crescer a barba, contrariando ( vim a sabê-lo mais tarde), a vontade materna, que me queria ver, à rebelia do meu gosto,  zelosamente escanhoado.